sábado, 23 de novembro de 2019

As Meninas do Blog Entrevistam: Thiago Sogayar Bechara

O jornalista e escritor Thiago Sogayar Bechara.
 Foto: Tato Fischer.

Thiago Sogayar Bechara nasceu em São Paulo. É jornalista, especialista em jornalismo cultural, Mestre em Estudos de Teatro pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Doutor em Estudos Portugueses e Românicos pela mesma instituição. 
Uma pessoa apaixonada pela palavra escrita, encenada, cantada. Começou desde muito cedo a escrever histórias e poemas. Publicou seu primeiro livro, “Impressões”, em 2002. O segundo veio dois anos depois, “Encenações”. 
É biógrafo, movido pela vontade de documentar personagens que foram importantes para a cultura do país. Em seu site, www.thiagobechara.com.br, os leitores podem conhecer um pouco mais sobre sua trajetória, ter acesso a livros e artigos de sua autoria, vídeos e fotos. Confira abaixo a entrevista que o escritor deu para as “Meninas do Blog”.

Blog For You: O que o Jornalismo Cultural e a Literatura significam em sua vida?
Thiago: O Jornalismo, bem como a Teoria Literária, para mim, são ferramentas. Fundamentais como referência e possíveis critérios a serem adotados, tanto como leitor quanto como escritor. As técnicas jornalísticas, por exemplo, ajudaram-me muito na escrita das tantas biografias que fiz. Já a Literatura, com maiúscula, propriamente dita, esta é como que a lente dos meus óculos. O moduspor meio do qual vejo o mundo. Mais especificamente a poesia. Não a poesia apenas como gênero literário, mas sim como forma de enxergar e encarar a realidade humana e a vida como um todo. Neste sentido, Literatura e Poesia, para mim, são uma coisa só. E é por meio delas, e do direito à fabulação que elas permitem, que eu posso respirar.

Blog For You: Qual é a sua opinião sobre o Jornalismo Cultural de hoje?
Thiago: Estou mal informado a esse respeito. Venho focando minha área de atuação na crítica literária e na escrita ficcional e poética propriamente ditas. Como investigador e eventualmente professor, tento usar o cânone do Jornalismo Cultural a meu favor, mas o que leio das expressões jornalísticas atuais não me permite emitir um parecer que seja minimamente responsável. O que posso arriscar a dizer, talvez, é: parece-me que cada vez menos a arte e a cultura importam para aqueles que têm o poder no Brasil. O real poder. De modo que quem destes depende para sobreviver empresarialmente (e isso inclui jornais, blogs, sites e revistas) fica numa saia justa. Mas generalizar qualquer outra coisa neste sentido seria leviano da minha parte.

Blog For You: Em que momento você despertou para as poesias?
Thiago: Não tenho a menor ideia. Sei que aos seis para sete anos eu já escrevia. Com uma angústia precoce e uma anímica necessidade de pôr algo para fora. Mas com tão pouca idade era impossível saber o quê, assim como era impossível ter recursos formais, técnicos e de maturidade para poder fazê-lo a contento. Infelizmente, até hoje sou aquela criança, buscando a melhor maneira de dizer alguma coisa que mal compreendo, mas que é tudo o que possuo.

Blog For You: Conte-nos um pouco sobre seus projetos, ideias, livros...
Thiago: Projetos são inúmeros. Se estão perguntando especificamente sobre os literários, tenho um livro novo de poesia no prelo a ser lançado em 2020, por uma editora espanhola e o prefácio de uma grande artista brasileira. Tenho ideias de consolidar minha carreira acadêmica como professor no Brasil, para onde estou voltando a morar depois de mais de 4 anos vivendo em Lisboa. Sobre livros novos e inéditos, tenho alguns em andamento, já há muitos anos que venho trabalhando neles. Posso adiantar que há contos novos, poesias, uma tese de doutorado que pretendo publicar, e talvez um romance. Mas tenho aprendido a ter mais calma e menos ansiedade. Demorarei mais para publicar novos trabalhos. Quem sabe assim evite alguns arrependimento futuros, risos.

Blog For You: Quais os seus estilos literários e escritores favoritos?
Thiago: Sou um homem do século XXI e me interessam muito as questões do "eu" e da "memória" neste mundo de tanta informação desinformada. Não pretendo especificar um estilo literário nem sequer um gênero. Amo a prosa, a poesia, o ensaio, a dramaturgia, a biografia etc. Tendo, entretanto, para obras que me apresentem questões humanas fortes, essenciais, profundas. Neste sentido o realismo, o naturalismo e o modernismo me interessam mais. Mas sou louco pelos gregos antigos, risos. Vamos aos meus escritores favoritos. Alguns deles: Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Luigi Pirandello, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Kafka, Homero, Tchékhov, Tolstói, Gontcharov, Alberto Moravia, Albert Camus.

Blog For You: Sua tese de mestrado versa sobre Fernando Pessoa. Por quê este autor?
Thiago: Porque ele é o único capaz de dizer fora de mim o que eu só sei dizer de mim para mim mesmo, sobre a tragédia e a maravilha que é ser humano e falar português.

Blog For You: O quê você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria ao Thiago de seu primeiro livro?
Thiago: Tenho procurado ser menos prolixo, mais claro e mais profundo nos assuntos que me interessam investigar. No fundo, literatura é isso. Investigação do homem e, portanto, espelho. Não sei se tenho conseguido, mas quero crer que amadureci um pouco nesses quase 18 anos de vida editorial. Para o Thiago do meu primeiro livro eu diria: Calma. Mas ele era teimoso, e faria tudo igual, risos.

Blog For You: Como você se mantém inspirado? Você aguarda um momento de inspiração para começar a escrever?
Thiago: Não me mantenho. Não aguardo nada. Um vulcão nunca aguarda entrar em erupção. Quando algo se move por debaixo, nas entranhas, o magma simplesmente explode. Talvez por isso o primeiro livro de Guimarães Rosa (só publicado postumamente) tenha se chamado - e se chame - Magma.

Blog For You: Qual o mais difícil: escrever a primeira ou a última frase?
Thiago: Não tenho a menor ideia, risos. Não se escreve compartimentadamente. Primeiro isso, depois aquilo. Escreve-se em jorro. Depois juntam-se os pedaços.

Blog For You: Que conselhos você daria para quem sonha em ser escritor?
Thiago: Leia muito. Escreva muito. Duvide muito de você. Fique atento para testar se suas dúvidas resistem à necessidade imperiosa da escrita. Não saia publicando, como eu fiz, risos.










quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Dia da Consciência Negra



Foi em um sábado de 1971 que um grupo de 12 negros se reuniu no Clube Náutico Marcílio Dias, em Porto Alegre. Era 20 de novembro, data que marca a morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior dos quilombos do período colonial brasileiro. Em 1695, Zumbi foi assassinado em uma emboscada e teve sua cabeça exibida em praça pública, depois de liderar a resistência por quase 20 anos. No clube gaúcho, homens e mulheres falaram sobre a história de Zumbi e de outro rei de Palmares, Ganga Zumba, sobre como os negros foram trazidos da África para o Brasil e sobre a escravidão. Recitaram poemas de Castro Alves e Solano Trindade. Estava lançado o Dia da Consciência Negra.
No final de 1970, um pequeno grupo entregava panfletos, na Central do Brasil, contra a discriminação racial. Hoje, rodas de capoeira, grupos de dança e de música afro, passeios culturais, roupas e comidas típicas afro-brasileiras tomam conta de vários pontos da cidade, em uma grande celebração a essa cultura tão rica e tão importante na formação de nossa sociedade. 
Eventos como o que lotou a Sala Cecília Meireles, na noite de ontem. Como parte do Festival Xire Odara, foi apresentado o espetáculo Iyá Nitinha d’Oxum, que conta a história daquela que foi uma das mais importantes Iyalorixás do país, desde a sua chegada no estado do Rio de Janeiro à fundação do Axé Ya Nassô Oka Ilê Osun. O espetáculo contou com a participação da Orquestra de Atabaques Alabe Funfun, da Cia. de Dança Obirin Korin, da Cia. Musical Awuré Orin, do cantor Lúcio Sanfilippo e da atriz Ana Carbatti. No repertório, cantigas e rezas das religiões de matriz africana, nas línguas nagô, bantu e efon.
O Dia da Consciência Negra também foi celebrado com uma roda de capoeira e a tradicional lavagem da estátua de Zumbi dos Palmares, no centro do Rio. A data é feriado nos estados do Rio de Janeiro, Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Roraima, além de vários municípios brasileiros, como a cidade de São Paulo.




sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Entrevista com Natasha Jascalevich

Natasha Jascalevich, atriz e contorcionista.





Do alto de um Empire State iluminado ou sobre um globo reluzente, a sedutora Bárbara encanta Nelson Motta, enquanto o balé impecável de Natasha Jascalevich prende a atenção (e a respiração!) do público diante de tamanha beleza, criando alguns dos grandes momentos do espetáculo “O Frenético Dancin’ Days”. A peça a qual nós, as meninas do blogue, assistimos pelo menos oito vezes, enquanto esteve em cartaz no Teatro Bradesco (atualmente Village Mall), conta a história da lendária discoteca carioca criada por Nelsinho e um grupo de amigos, no ano de 1976, que, mesmo durando apenas quatro meses, revolucionou os costumes não só na então capital cultural do país, como de toda uma geração. 
Mas a intérprete de Bárbara começou sua trajetória cedo. Natasha é artista desde os 10 anos de idade e hoje, aos 26, espetáculos de teatro e teatro musical de grande sucesso fazem parte de seu currículo. Neste post, conheceremos um pouco mais sobre essa artista incrível.

5 perguntas para Natasha Jascalevich


Blog For You: Como foi o início da sua trajetória? O que te levou ao teatro e aos musicais?
Natasha: Iniciei minha trajetória no circo, num projeto social, quando eu tinha 10 anos de idade, na cidade de Armação dos Búzios. Como era a única coisa que tinha para fazer de cultural na cidade, eu acabei ficando no projeto dos 10 aos 17 anos e vim para o Rio de Janeiro fazer a Escola Nacional de Circo. No meio do processo de formação, eu me envolvi com o teatro “Nós do Morro”, que também é um outro projeto social, e acabei passando no teste de um musical chamado “O Grande Circo Místico”, do Chico Buarque e do Edu Lobo. Como a temática era circo, eu acabei entrando e aprendendo a cantar, a atuar, dentro desse primeiro musical. De lá para cá, fui emendando muitos musicais. Depois de “O Grande Circo Místico”, fiz ”Simonal”, “Gabriela Cravo e Canela“, do João Falcão, “Beth Carvalho, O Musical”, “O Frenético Dancin’ Days”, enfim, uma série de musicais, viajei para a França com peça...

Blog For You: Na sua carreira como atriz, qual foi o trabalho que te marcou mais profundamente?
Natasha: É difícil responder qual o trabalho que me marcou mais profundamente, mas acho que, a nível de dificuldade de personagem, foi interpretar a Maria Bethânia, no musical da ”Beth Carvalho”. Por ser uma pessoa que tem toda uma história e uma grande artista, acho que foi uma dificuldade. De marco mesmo na carreira acho que ”Gabriela Cravo e Canela”, do João Falcão, foi um dos espetáculos mais bonitos que eu fiz. Na TV, agora, eu acabei de gravar uma série chamada “Todas as Mulheres do Mundo”, na Rede Globo, que também foi bem importante, mas ainda não estreou.

Blog For You: Conte-nos sobre seu atual projeto. O que muda para você como atriz neste novo trabalho?
Natasha: Atualmente, estou em Recife, voltando de um festival, o “Festival de Circo do Brasil”, onde eu apresentei um working progress do meu projeto solo chamado “Prazer, Dona Flor”, que é a história da Dona Flor sem os dois maridos, é a história da Dona Flor por trás dos dois maridos. Neste meu projeto solo acho que vou conseguir mesclar todas as minhas técnicas, um pouco do canto, dança, acrobacia, atuação... Acho que esse é o diferencial desse projeto, que é uma grande mistura e acho que vai ser importante para a minha carreira para me firmar como essa atriz ou artista múltipla.

Blog For You: Quem você ainda gostaria de interpretar?
Natasha: Também é muito difícil definir qual seria um personagem que eu gostaria de interpretar. Acho que dentro dos musicais, a Velma Kelly, de “Chicago”, é uma super personagem, mas parece que para a montagem de 2020 já tem uma pessoa disponível, mas eu acho que dos musicais clássicos da Broadway, esse seria um personagem que eu gostaria de interpretar. No audiovisual, gostaria de interpretar qualquer história de uma mulher forte, guerreira e, seria legal assim, a história de uma mulher batalhadora.

Blog For You: Quais os seus planos para a carreira daqui para frente?
Natasha: Eu por enquanto acho que o foco é produzir esse meu espetáculo, que já está em processo de criação, já veio fazer Working Progress em Recife... Então, a ideia agora é focar um pouco nesse espetáculo, apesar de estar trabalhando ainda com ”Lazarus”, do Felipe Hirsch, que vai entrar em cartaz no Rio de Janeiro, em fevereiro, mas esse é meu foco principal, além dessa transição para o audiovisual, aos poucos, para ir abrindo um pouco os horizontes. Esse é o meu foco agora.

Fotos gentilmente cedidas pela atriz para ilustração da matéria.


sábado, 9 de novembro de 2019

Três perguntas para...

Fotos cedidas pelo administrador da página @officialslystallonefan,
nosso entrevistado neste post.


Um dos maiores destaques dos filmes de ação, Sylvester Stallone participou, ao longo de seus quase 50 anos de carreira, de cerca de 45 filmes, os quais permanecem na mente do público. Obras que vão além da mera pancadaria e deixam para seus fãs uma mensagem de incentivo para que não desistam de seus sonhos e nunca deixem que os duros golpes da vida transformem sua essência.  Fãs como o administrador do perfil @officialslystallonefan , que reúne em torno de 105 mil seguidores de várias partes do mundo, no Instagram. Entre as publicações estão fotos, vídeos, produtos e frases do ídolo. Ele nos contou um pouquinho sobre sua admiração pelo astro norte-americano.

Três Perguntas para @officialslystallonefan



Blog For You: O quê você mais admira no Sylvester Stallone?

@officialslystallonefan: O que eu mais admiro nele é a determinação. Stallone nunca desiste do que ele quer.


Blog For You: Qual o seu filme preferido e por quê?

@officialslystallonefan: Meu filme preferido é o “Rambo First Blood Part II”. Porque foi o primeiro filme que eu vi dele, devia ter uns 2 anos e eu adorava o arco e flecha, eu ficava admirado com todas as explosões...


Blog For You: Qual ensinamento seu filme preferido lhe trouxe?

@officialslystallonefan: Trouxeram-me muitos ensinamentos. Nunca desistir dos meus sonhos, seja qual for a dificuldade, devemos sempre seguir em frente. Seja qual for a situação em que estamos, que podemos até estar dormindo na rua, mas sempre tem uma forma de vencer. “Ninguém sabe do que é capaz” (Stallone).
•••
Keep punching! Never give up! Go for it! 😉👊

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

As Meninas do Blog entrevistam: Lee Mills

Foto: leemillsconductor.com

Conhecido internacionalmente como um maestro apaixonado, multifacetado e enérgico, o norte-americano Lee Mills deixou a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) em abril deste ano, após quatro anos e meio como maestro assistente e, mais tarde, residente. Foi durante o “Concerto em Choro”, que lotou o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que Lee Mills se despediu do público brasileiro, em meio à grande emoção. Aplaudido de pé, ele agradeceu o carinho e revelou não ter conhecido um público mais caloroso, carinhoso.
“Carinhoso é exatamente o que eu sinto sempre quando penso sobre o povo carioca. Vocês são maravilhosos! Desde que eu cheguei aqui, vocês me fizeram sentir parte dessa grande cidade, na qual eu tive a honra de estar à frente desses músicos. Peço a vocês que sempre apoiem a OSB, que é um patrimônio do Brasil.”
Seus trabalhos de regência fora da OSB incluem a Sinfônica Nacional dos Estados Unidos, a Filarmônica de Los Angeles, a Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), a Sinfônica de Saint Louis e a Sinfônica de Baltimore.

Foto: Cícero Rodrigues.

Blog For You: Como você se tornou Maestro? Era um sonho de infância?
Lee Mills: Comecei a estudar música com quatro anos de idade. Meus pais tinham um amigo que, em recompensa por um trabalho que fizeram, deu a eles um piano. Pedia muito a minha mãe que me colocasse na aula de piano. Nos primeiros dois anos, estudava dois, três meses e parava. Depois, comecei a estudar piano com mais regularidade. Aos sete anos de idade, comecei a cantar no coral da escola e, aos oito, a tocar trompete na banda sinfônica da escola. Aos doze, tocava na banda de jazz, a Big Band e, assim, passei todo o ensino médio. Quando fui para a faculdade, já sabia que faria música. Após fazer um semestre de regência, o que era obrigatório no curso, fiquei fascinado com as partituras, com o jeito como os compositores usavam os instrumentos da orquestra. No terceiro ano da faculdade, juntei meus amigos e alguns professores e fizemos uma orquestra. Foi muito legal! Na faculdade, me formei em música. Depois, passei para a pós graduação em regência, no Peabody Institute, em Baltimore, Maryland, cujo professor era, na época, Gustav Meier, provavelmente o mais reconhecido professor de regência dos Estados Unidos. Marin Alsop, maestrina da Orquestra Sinfônica de Baltimore, me viu no curso, em uma das vezes em que foi professora convidada, e me chamou para ser conductor fellow, uma espécie de aprendiz, na Baltimore Symphony, onde fiquei por um ano. Quando regia uma orquestra de uma universidade próxima à Baltimore, vi um anúncio sobre a vaga na OSB e mandei meu material. Isso foi em 2014.

Blog For You: Antes de vir para o Brasil, o quê você conhecia da nossa música?
Lee Mills: Essa é uma boa pergunta. No Conservatório, a gente aprende que o Brasil tem música clássica sim, mas só falamos de Villa-Lobos e de sua Bachiana nº 5. Não tinha ideia nenhuma de que o Brasil tinha essa tradição de música clássica tão forte. Aliás, eu diria que, até o século XX, a música  clássica, a música orquestral, era mais forte aqui que nos Estados Unidos, pois a maioria dos compositores norte-americanos dos quais falamos são do século XX. O Brasil tem compositores barrocos, compositores da época clássica, romântica, século XX, uma tradição muito forte de música clássica que eu nem sabia.

Blog For You: O Brasil te abraçou...
Lee Mills: É… Me abraçou mesmo. Eu me senti bem vindo. Quando cheguei aqui, todo mundo foi muito legal comigo. O povo aqui é muito carinhoso, caloroso. O público do concerto sempre gosta das peças. Podemos colocar a peça mais maluca do mundo, que às vezes nem receberia aplausos lá fora, que o público aqui recebe de braços abertos. Acho que é porque o público aqui agradece, aprecia música clássica, mesmo que a peça não seja necessariamente a seu gosto, seja a mais esquisita, mas a pessoa aprecia a força que foi para criar essa música, para toca-lá, compô-la. Acho que isso é uma coisa maravilhosa dos brasileiros, algo que você não vê em todos os países. Depois tem as críticas, mas na hora público é muito caloroso. Eu adoro isso no Brasil. Vou sentir falta dessa energia porque a interação do público aqui é muito forte.

Foto: leemillsconductor.com


Blog For You: Você está voltando para os Estados Unidos... pretende ficar muito tempo lá?
Lee Mills: Não sei ainda quanto tempo vou ficar por lá. (Mills assumiu o posto de maestro associado na Orquestra Sinfônica de Seattle, em setembro, e realizará uma grande variedade de concertos durante a temporada 2019-2020. Ele também atuará como maestro assistente para regentes titular e convidados durante a maior parte da temporada.)

Blog For You: Sabemos que você pegou uma fase muito difícil da OSB...
Lee Mills: Sim. Quando fiz minha inscrição, minha audição, o Brasil era um foguete para as estrelas, né? Foi em 2014. Eu cheguei em setembro, as coisas estavam indo bem ainda. Uns quatro meses depois, o país entrou em crise. Verba e incentivo diminuíram. Foi difícil ver a Orquestra passar por isso.

Blog For You: Percebemos que você gostou do Rio mesmo, né?
Lee Mills: Eu adoro o Rio de Janeiro! Estou fazendo essa mudança por dois motivos: primeiro, é muito emocionalmente desgastante trabalhar em uma crise assim, mesmo que as coisas já estejam começando a entrar nos eixos. A verba da OSB este ano é a metade do que era em 2014. Ficamos sem lugar adequado para os ensaios, por exemplo, o que influencia no aprimoramento de uma Orquestra que já tem um nível muito alto e poderia estar rendendo o dobro. Vou para a Sinfônica de Seattle por acreditar que será uma experiência boa para minha carreira e na área pessoal também, mas adoro o Rio de Janeiro e teria muita vontade de voltar, depois de crescer um pouquinho mais.

Foto: Cícero Rodrigues.

Blog For You: A tua entrega, no palco, é única...
Lee Mills: Obrigado! Eu acho que tem duas perspectivas nisso. Primeira é que, quando estou no pódio, na frente à Orquestra, independe da música, não tenho uma favorita. Eu estudei tanto sobre música, que me apaixonei pela música. Tem peças que são ruins sim, nunca vou gostar, mas gênero de música, para mim só tem dois, música boa e música ruim (risos). Por mim pode ser uma peça contemporânea, uma peça romântica, algumas chegam até a ser bregas, mas quando as estudo e entendo o que está na mente do compositor, eu fico apaixonado pela música. E o que superficialmente parece ser uma peça muito brega, pode ser muito profunda. Eu adoro o que estou fazendo e, quando estou no pódio na frente da orquestra, eu tenho a sensação de que é o único lugar no mundo em que eu queria estar. Não existe momento mais feliz do que quando estou na frente de uma orquestra. Eu fico muito feliz por estar no palco, mas mais feliz ainda quando estou criando a música com a orquestra. O segundo ponto é que tem músicos clássicos que pensam que a arte tem que ser algo muito sério. Não é que eu não leve a sério meu trabalho. Eu estudo muito em casa, com muita seriedade. Mas na hora que estamos no palco, na minha perspectiva sobre arte em geral, mas ainda mais sobre as artes de performance, quando estamos ao vivo com um público presente, seja em um ballet, música, teatro ou Ópera, pode ser triste, pode ser trágico, pode ser comédia, qualquer um dos gêneros, é entretenimento. Estamos diante de pessoas que estão lá para se emocionar junto com a gente. Acho que o público faz parte do concerto tanto quanto a orquestra. Quanto mais a vontade o público estiver, mais ele vai absorver da arte que estamos proporcionando. 

Blog For You: Percebíamos uma sintonia entre você e a OSB... Você voltaria?
Lee Mills: Sim, se daqui a dois, três anos a OSB estiver melhor e me chamar, com certeza eu vou voltar. Eu amo o Rio de Janeiro e estou mega triste porque terei que sair desta cidade. Felizmente, estou criando vários projetos, que eu estou desenhando ainda, e espero poder voltar ao Rio com frequência. Mesmo que não tenha projetos, vou voltar aqui nas férias porque eu adoro essa cidade. Foi a única cidade que eu morei na vida, que eu realmente sinto falta quando estou fora. Eu me apaixonei por essa cidade e todas as coisas que ela tem. Uma energia de vida muito crua que, sim, tem suas falhas, coisas que poderiam ser muito melhores, mas ao mesmo tempo, você  sai à rua e a energia da cidade é, tipo, palatável, é uma coisa, tipo, vibrando o tempo todo. É mega desorganizada, a cidade mais contraprodutiva do mundo, mas é uma energia tão gigante, que não tem como ficar de fora dessa.

Ana Cavalieri, Lee Mills e Maria Cristina Lagoas, após o concerto que marcou a última apresentação
de Lee Mills à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Foto: Cícero Rodrigues.




segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Coppélia - Ballet e Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal


O Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, depois de três anos, trouxe de volta à cena um grande ballet, com todo seu repertório e atos. 
Coppélia estreou para o grande público em 28 de setembro com casa lotada. No palco, o trabalho dedicado do coreógrafo Enrique Martinez, do cenógrafo e figurinista José Varona, a direção e mise-en-scène de Dalal Achcar tomaram corpo através dos magníficos bailarinos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
O espetáculo, baseado em um conto fantástico de E.T.A. Hoffmann, tem como personagens principais o Doutor Coppelius, Swanilda - a jovem mais bonita da aldeia de Cracóvia - e seu noivo Franz.  Certo dia, ele fica encantado por uma menina que todas as tardes dedica-se à leitura na janela da casa do Doutor Coppelius e faz de tudo para chamar a sua atenção, mas não obtém reação. Swanilda os flagra e promete vingar-se. Com suas amigas, entra na casa do Doutor Coppelius. A sala está cheia de pessoas que não se movem. As moças descobrem que essas pessoas são, na verdade, bonecos mecânicos em tamanho real. Swanilda encontra também a menina leitora, Coppélia, atrás de uma cortina.
Assistimos a um ballet muito bem ensaiado, com solistas em ótima forma, em belíssimos figurinos e cenários caprichados, ao som da impecável Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, regida por Tobias Volkmann. O Maestro - Principal Regente Convidado da Orquestra Sinfônica Nacional da UFF - juntou-se aos bailarinos para agradecer ao público, no final do espetáculo.


Por Ana Cavalieri e Maria Cristina Lagoas.
Fotos: Maria Cristina Lagoas para Blog For You.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O que a gente não tem coragem de jogar fora

O artista plástico Renato Bezerra de Mello, a curadora Bianca
Bernardo e as blogueiras Ana Cavalieri e Maria Cristina Lagoas.

Dias 16 e 17 deste mês, aconteceu o “CIGA 2019 -  Circuito Integrado de Galerias de Arte”, promovido pela ArteRio. O evento tem o objetivo de aproximar cada vez mais o público carioca e seus visitantes das artes visuais. Estivemos na Galeria Inox, visitando a exposição de Renato Bezerra de Mello, intitulada “O que a gente não tem coragem de jogar fora”, na qual o artista
“partiu de objetos e imagens guardados ao longo de sua trajetória, trazidos da infância, recebidos como herança ou mesmo produzidos durante seu processo de formação artística na França. Entre desenhos, esculturas,  bordados e gravuras, o artista reinventar a memória através do gesto que busca tanto estancar o tempo, quanto propor novas formas para o corpo. Por meio  de costuras que contornam para libertar a presença de sua ausência, o artista corajosamente se lança ao encontro do desejo de reparação, compreendendo que toda lembrança guarda em si uma cerimônia de adeus”,
como nos explica Bianca Bernardo, curadora da mostra.
As obras expostas tocaram de maneira profunda os visitantes, pois seu trabalho mostra nitidamente um retorno ao passado, tornando a lembrança presente em cada peça de maneira tão forte que fora materializada no painel que remete à caligrafia dos tempos de infância.


O painel composto por 37 cartões onde estão escritos a palavra
“lembrança” com diferentes caligrafias.